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“Estado da Nação”: Cydia Duarte, voz em ascensão, relata os dramas do país

by Mario Monjane / 27 27+02:00 January, 2022 / Published in Blog

Há duas semanas que Cydia Duarte – uma voz em ascensão que parte de Nampula – disponibilizou o seu olhar à realidade mais recente que acomete o país e decidiu chamar essa missiva de cinco minutos de “Estado da Nação”. Quanto atrevimento! A jovem de 25 anos que se dedica numa mescla entre hip-hop e R&B chamou Nervas, um jovem que não passa despercebido nas abordagens actuais em língua local, para dar um perfume sonoro mais relaxante às barras que fazem um roteiro sobre o drama do terrorismo em Cabo Delgado, raptos, corrupção, nepotismo, Covid-19, analfabetismo, pobreza e intolerância política.

Nesta apresentação sobre os dramas que o país enfrenta, Cydia esmerou-se na incubação da sua narrativa que escalona muito bem os assuntos, mostrando o seu poderio liricista e se assumindo uma activista político-social, dando um parecer sobre os males sociais. É, seguramente, uma proposta de denúncia e distanciamento dos assuntos que minam a estabilidade social do país e, ao mesmo tempo, mostra-se afastada do grupo de jovens que ignoram os últimos acontecimentos reservando-se à febre improdutiva das redes sociais.

A música, antes, faz um retrato sobre o ponto de situação sobre o cenário da guerra em Cabo Delgado, recorrendo a excertos de reportagens nacionais e estrangeiras sobre este drama, que já acumula cinco anos agudizando a precariedade da população do Norte do país.

É, para já, uma estratégia acertada por parte da artista, mesmo para dar um panorama genérico sobre a actualidade de que pretende se debruçar, como que a chancelar as palavras que a posterior sustenta. Aliás, sendo ritmo hip-hop é bem comum tal introdução e permite que o ouvinte, antes mesmo da música ecoar, tenha noção da temática a ser abordada e, por isso, redobre a atenção.

“Hashtag, todos por Cabo Delgado/a mensagem viralizou e inundou as redes sociais”, assim começa a narração digamos que jornalística de Cydia Duarte sobre um dos grandes males que acomete a sociedade nos últimos anos. A voz bem colocada e com o timbre perceptível são os fundamentos primordiais de um vocalista e Cydia consegue arrumar os seus sons e partilhá-los uniformemente, sendo fácil acompanhar o seu raciocínio. E mais, assenta-se perfeitamente na instrumental, controlando o seu desequilíbrio, permitindo harmonia entre a instrumentalização e a voz, prova da sua trajectória que remota aos 13 anos.

Feito um futebolista habilitado com a bola, Cydia assume todo o poderio no “beat” e desliza sem quaisquer adversidades, como quem sabe o que faz, para bem dizer. Apenas devia soltar-se e encontrar contornos autênticos e exclusivos para “escorregar”, o que iria contribuir para a sua maior afirmação artística. Ou seja, há um quê de a vontade que anda ausente.

“O país não está bom!”, denuncia Cydia, dando como provas a barbárie dos raptos na capital do país à luz do dia, assassinatos envolvendo altas patentes da polícia, maus tratos de estrangeiros para com os moçambicanos e, para piorar, o olhar impávido do Governo. Por isso, pergunta, até quando vamos viver assim?

Nervas, naquele timbre arrepiante, reitera a pergunta, mas prefere outra língua, xiChangana. Em tradução directa, o jovem que conquistou aplausos num dos reality shows de canto no país, aponta o dedo ao Governo: “quando é que vamos desenvolver?”, sublinhando que a única preocupação é ganhar as eleições e a colocação de portagens ilegais. E, contundente, pergunta: “será que percebem que o país não está bom?”.

A voz de Cydia regressa com o outro hashtag, desta vez para falar sobre a necessidade de usar a máscara, distanciamento social e desinfecção das mãos, uma postura social que a artista elogia, mas, por outro lado, condena o sufoco económico das medidas drásticas de controle da Covid-19. Ou seja, sustenta a artista, se o país entrou no beco do caos devido às dívidas ocultas, as restrições decorrentes da pandemia agravaram sobremaneira o custo de vida.

Mais adiante, sublinhando que “o país não está bom”, Cydia lembra-nos de situações tristes: “quase metade da população moçambicana é analfabeta/como se explica esta estatística com tantos anos de independência?/dirigentes corruptos neste país/por que todos não são presos?/mas todos os dias assistimos a media a condenar as pessoas inocentes” e por aí segue um discurso retumbante que vasculha também a falta de liberdade de expressão, a falta de uma media independente e a pobreza – que deriva da falta de meios básicos para a sobrevivência.

Portanto, como sublinha, antes do Nervas arrefecer a música, “é mentira o que vês todos os dias na TV, pois é uma luta diária sobreviver”.

Mas não é mentira que se trata de uma música intervencionista por excelência, que faz o périplo pelos problemas candentes da actualidade, chamando-os com pelos próprios nomes, sem sarcasmos e nem ironias, sem metáforas e nem metonímias aguçadas. Pode ser de propósito, como preferimos pensar, ou por alguma incipiência discursiva. Seja como for, a música “Estado da Nação” descreve fielmente o Estado que o nosso país se tornou – uma hecatombe. Talvez não muito o estado da música, que busca cada vez mais pela criatividade e trata temas corriqueiros com um pouco mais de inovação. Cydia aqui bate para dor, como é próprio de uma macua, que não esconde a sua alma e não a vende. É uma música digna de quem conhece os seus direitos e cantada por um talento ainda com muito por lapidar.

Cydia Duarte & Nervas – Estado da Nação

Por: Elcídio Bila – Entre Aspas

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