Paulo Chibanga é o diretor de Khuzula, produtor do Azgo Festival, um dos melhores festivas internacionais de artes de Moçambique. Reunindo um programa diversificado e de qualidade de música, cinema e dança para a cidade de Maputo, Azgo é uma celebração contemporânea de artes e cultura, com forte foco em artistas de Moçambique e de todo o continente africano.
Na sua caminhada, o Azgo (do inglês Let’s go) já fez desfilar artistas como Paulo Flores, Elida Almeida,Maya Andrade, Deltino Guerreiro, Azagaia, Lira, Lura, kappa Dêch, Maria Gadu, Antonio Marcos, Ghorwane, Eyuphuro, Orquestra Djambu, MiCasa, Yola Semedo, Ray Phiri, Tkzee, Oliver Mtukudzi, entre muitos outros.
Este ano, a plataforma Azgo encerra o primeiro ciclo de 10 anos initerruptos de um festival que, desde o seu início, privilegia qualidade e diversidade, pretexto para uma conversa com o seu timoneiro Paulo Chibanga que, a dado momento da sua vida, decidiu colocar as baquetes de lado e dar o seu contributo às artes.
Vamos começar a conversa com uma pergunta algo trivial… o que o motivou a criar o AZGO?
A pergunta remete-me, à partida, ao próprio nome… Azgo… significa “vamos fazer alguma coisa”. Na altura, quando começamos, eu já tinha uma bagagem internacional de participação em festivais pelo mundo fora – com as bandas 340 ml e Tumi – e tinha percebido que os festivais não se destinavam apenas à música. Por isso mesmo, quando começamos em 2011, em formato pequeno no Mafalala Libre, já estava claro que queríamos criar pontes de intercâmbio cultural, criar oportunidades para os artistas e o público…
E 10 anos depois, a filosofia mantém-se? Os objetivos traçados foram alcançados?
A filosofia mantém-se. Está no ADN do AZGO. Pelo retorno que recebemos, dá para sentir que as pessoas também já entenderam o espírito do festival. Somos um festival que é 60 por cento local e 40 internacional. Sempre criamos espaço para que os artistas nacionais e os internacionais possam interagir, criar laços e parcerias… temos o Seminário “AZGO Dialogar” para advocacia sobre o poder das industrias criativas… há objetivos claramente alcançados, mas a ideia de um Festival do mundo continua válida e é um dos catalizadores do nosso trabalho.
Ainda assim, o AZGO rapidamente transformou-se numa referência…
Quando começamos o AZGO não havia festivais em Moçambique e eu continuo a dizer que não temos festivais na verdadeira acepção da palavra. Temos vários eventos aos quais chamamos festivais mas ainda há um longo caminho a percorrer até se transformarem em verdadeiros festivais. Veja que a ideia de trazer bandas ecléticas, emergentes ou nem tão conhecidos, para os palcos do nosso festival, no início não foi bem percebida mas com o tempo as pessoas foram captando a essência do que estávamos a propor. O AZGO é um evento de descobertas também.
Então a diversidade de actividades concorre para a edificação de um “verdadeiro” festival?
Hoje temos uma audiência muito acima daquilo que tínhamos no Mafalala Libre com umas 500 pessoas num mês de actividades de quinta a sábado. Hoje estamos a caminhar para um evento que acontece em 4 dias – seminários, concertos musicais, incluindo um gratuito – com uma audiência a rondar as 13 mil pessoas.
Quais os grandes desafios para fazer do Azgo algo que as pessoas queiram nas suas vidas?
Tirando aqueles que são os desafios comuns em África e no mundo para financiar eventos culturais, eu acho que é acreditar no espírito do Azgo, um espírito que quer que as pessoas participem sem preconceitos, que descubram novas tendências… Não queremos que o Azgo seja um evento “amarrado” aos grupos musicais… queremos que o Azgo seja um evento que promove um estilo de vida para além da música. Para mim esse é o grande desafio.
Quando fala de novas tendências, faz-me pensar no line up que quase sempre traz artistas completamente desconhecidos…
É gratificante ouvirmos nas nossas rádios ou em casas particulares artistas que o público não conhecia mas que nós trouxemos para o nosso país e passaram a fazer parte do nosso imaginário. Esse é também um dos objetivos.
Mas também trazem bandas que fazem parte do mainstream musical.
Claramente que é importante trazer grandes bandas… mas nem sempre reflectem o mainstream. Claro que arranjar dinheiro para suportar a produção não é um exercício fácil. Quase sempre que iniciamos a preparação de uma nova edição, não sabemos o que é que vai acontecer.
Pode ser mais específico?
Um exemplo… Maputo é uma cidade com espaços limitados. Esse é um dos maiores desafios para os promotores de eventos. Houve uma altura que era o Parque dos Continuadores…
Mas o Campus da UEM parece acomodar e bem o Azgo…
Nós é que descobrimos a UEM como local para acolher eventos… foi mesmo nessa busca de lugares. Penso que já é altura para aqueles que têm capacidade de decisão pensarem nesta questão de espaços culturais que possam acolher grandes festivais. Neste momento estamos a repensar o Azgo e como criar uma sustentabilidade mais consistente sobretudo quando falamos de espaços…
E quais as soluções que se desenham no horizonte?
Levar o festival para Cumbeza… criar um espaço funcional que possa acolher os nossos eventos sem essa preocupação do lugar. Já agora agradecer aos parceiros que nos ajudaram a ter espaço para tal. Há muitas coisas que não promovemos dentro da nossa cultura por causa da limitante do espaço… eu imagino um lugar com mangueiras, mafurreiras… um lugar com força para atrair turistas nacionais e internacionais…
Quais os momentos “grandes”, a título de exemplo, do Azgo nestes 10 anos de estrada…
Eu acho que a nossa última edição (2019) merece um destaque pela qualidade de produção; não há uma formação para isso em Moçambique, o que quer dizer que numa produção tudo é feito por amadores; então quando as coisas passam a ser feitas metodicamente, é motivo de alegria.
Certo… mais…
Não sei se será um detalhe positivo ou não, mas o facto de termos acolhido um dos últimos concertos de Ray Phiri é, para mim, um grande momento do Azgo. Outro destaque foi a apresentação do Azagaia em 2016… Azagaia estava banido do circuito. Só o seu nome era suficiente para fazer recuar alguns patrocínios. Tivemos que “esconder” o nome dele até ao último momento, mas quando ele entrou em palco, o público ficou extasiado e a sua actuação mereceu destaque na comunicação social. Sob o ponto de vista artístico, foi único.
A vida do “Homem-Bomba” mudou a partir daquele momento…
Sem dúvidas. Ele voltou a ribalta. Mas há mais destaques… a relação que temos com a UEM merece destaque. Não só pelo espaço, mas por tudo o que a Universidade representa. A abertura da universidade é fundamental e o ambiente da academia cria possibilidades interessantes. Outra coisa que merece nota é a manutenção das parcerias e dos patrocinadores do Azgo… não é um exercício fácil, mas nós temos parceiros que estão conosco desde o primeiro momento e que continuam a apoiar-nos.
Quais os grandes desafios para o Azgo nos próximos tempos?
Para quem aguentou 10 anos, o maior desafio é continuar a fazer o festival. Os moçambicanos gostam de “medir” as pessoas… sempre nos perguntavam se seriamos capazes de fazer mais uma edição… felizmente respondemos com o nosso trabalho e a nossa qualidade. Não nos queremos colocar em bicos de pés mas queremos continuar a fazer o Azgo com qualidade. Criar sustentabilidade própria. Esse é o maior desafio.
É um grande desafio…
O Azgo é uma referência em África. Não há muitos festivais de músicas do mundo como este… atenção estou a falar do modelo. É difícil gerir, mas é uma grande escola. Nós estamos num país onde não existe uma base fiável de preços dos fornecedores. A importação é cara. As taxas são enormes para quem quer fazer cultura. Fazer negócios aqui é muito difícil. Gerir um festival é complicado… há um jeito muito relaxado de fazer as coisas aqui… quando se aproxima a hora do espectáculo, muitas vezes não sabes se o artista chegará a tempo; é o público que também não obedece aos horários estabelecidos…
MOÇAMBIQUE DIGITAL
A Khuzula apresentou há relactivamente pouco tempo a MODIGI… Moçambique Digital, uma plataforma de venda de música online. Qual é o pensamento por detrás deste projecto?
É assim… se calhar temos que ver a coisa sob o prisma de o que é que o Azgo trouxe para a nossa cultura… uma coisa levou a outra: enquanto compramos artistas, sentimos a necessidade de vender artistas moçambicanos.
E então?
Quando começamos a troca – por intermédio do IGODA, uma organização que engloba os festivais africanos como o Bushfire, Sakifo, Bassline Fest, etc. – onde cada um dos festivais, coloca uma banda no circuito – nós já levamos Stewart Sukuma, Ghorwane, Ras Haitrim, Kakana, etc. – e isso levou-nos ao nível seguinte: capitalizar as oportunidades disponibilizando o seu produto naqueles países.
Daí a plataforma MODIGI?
Exactamente. Há 5 anos iniciamos a montagem do projecto MODIGI. Estabelecemos contactos com parceiros internacionais, no caso a Orchard (hoje comprada pela Sony Music) visando colocar a música moçambicana no mapa – mundo. Na altura, uma busca no Google, dava apenas Stewart Sukuma e Moreira Chonguiça; eram os únicos com locais com conteúdos. Então depois do acordo com a Orchard começamos a disponibilizar conteúdos locais para o mundo. Hoje temos um catálogo com mais de 200 artistas, entre os quais Stewart Sukuma, Assa Matusse, banda Kakana, Xixel Langa, DJ Ardiles… temos vários artistas.
Tudo o que é novo causa alguma estranheza… como é que vê o processo?
O moçambicano não está habituado a fazer compras online e isso colocou-nos o desafio de promover estas plataformas e ao mesmo tempo conversarmos com os artistas no sentido de “despromover” a música disponibilizada de forma gratuita. Porque havia e ainda há essa coisa de disponibilizar a música gratuitamente. Ora isso faz com que algumas pessoas pensem que a música não tem valor e isso reflecte-se nos espectáculos quando se cobra um certo valor as pessoas reclamam ou procuram esquemas para não pagarem.
Certo… mas o mundo avança nessa direção…
Este é o futuro da música. Hoje, com os smart phones é possível aceder a todas essas plataformas. A MODIGI cresceu e hoje tem outras componentes, como gestão de direitos autorais, replicação de CD’s, Marketing, Relações Públicas, distribuição de musica pelas rádios, etc.
A Khuzula também tem uma editora!!!
E já vamos em quatro obras (Kwiri, Kudumba, Fany Mpfumo e Timbila do Marílio); a nossa editora está virada para conteúdos sobre a música.
Mas qual é escopo da editora?
Música. Literatura tendo a música como pretexto. Por exemplo com “Kwiri” de Roberto Chitsondzo, a ideia é trazer ao de cima artistas históricos que nunca gravaram. Roberto Chitsondzo tem os registos com o Ghorwane mas tem também muita música que nunca tinha sido gravada. Por isso que temos o livro e o disco. Queremos salvaguardar o nosso património cultural. É difícil arranjar financiamento para isso mas temos que fazer.
Pelos vistos não há mãos a medir…
Temos que correr. Empreender. Como Khuzula e como Paulo Chibanga tive a oportunidade de fundar duas associações, nomeadamente a OTHAMA (Plataforma das Artes e Turismo), com o Festival da Mafalala e o Kinani, para troca de experiências, acesso a informação e promoção das artes e turismo; e a ADEPE (Associação dos Promotores de Eventos).
Mas qual é a ideia de fundo com a Othama e a ADEPE?
A OTHAMA já promoveu uma formação para promotores culturais de todo o país, que estiveram aqui (Maputo) para um curso prático, visitaram locais turísticos e culturais. A ideia é fortificar os empreendedores e gestores culturais. A ADEPE visa criar uma maior coesão entre as pessoas que trabalham nas indústrias criativas. Para além do público (que pode aceder a eventos com maior qualidade) estão as pessoas que trabalham na área. Eu tenho a minha equipa, o Lito tem a equipa dele, o Kito também. E essas pessoas só trabalham uma vez ao ano e isso limita bastante. Precisamos de rotação dessas pessoas. Com gente melhor preparada, vamos avançar mais rapidamente para uma indústria criativa robusta.
Teremos, algum dia, de volta aos palcos o artista Paulo Chibanga?
Há muita gente que não sabe desse meu envolvimento com a música. Eu gosto de colocar um distanciamento entre as coisas porque para além da cultura faço outras coisas na Associação Industrial de Moçambique, por exemplo. Mas dizia que por causa do foco que eu coloquei no empreendedorismo, o lado artístico foi sacrificado. Não me imaginaria nesses anos que eu pudesse produzir o festival e também tocar.
Definitivamente não há mais esse fogo?
Somente agora, 10 anos transcorridos, é que volto a pensar em tocar… na verdade eu decidi que se voltasse a tocar, não seria para sobreviver. Não é que estivéssemos mal, nada disso; tínhamos uma carreira sólida. Voltar a tocar sim, mas pelo simples prazer de tocar. Agora esse fogo volta a queimar-me por dentro. O bichinho está lá…
Parou numa altura em que o 340 ml dava cartas…
Olha que nós (340 ml) fomos a seguir ao Jimmy Dludlu a banda que assinou um contrato com a Sony Music… era um sonho tornado realidade em 1999. Por acaso, a nossa primeira música “Midnight” este ano assinala 20 anos e apesar de os membros da banda estarem envolvidos em diversas frentes, não fosse a pandemia do coronavírus, iriamos nos encontrar para celebrar o facto.
Por: Belmiro Adamugy (Jornal Domingo)




